Sete dias passaram desde que demos o abraço de despedida à nossa família, para virmos atrás de um sonho para o outro lado do mundo (dizem-nos), tão longe de tudo aquilo que é para nós familiar.

Um misto de emoções vai-se apoderando de nós e, por vezes, tornam-se difíceis de conter. Colada à janela do avião, onde será para sempre o meu lugar preferido, os Himalaias lá em baixo a rasgar as nuvens, recordam-nos porque estamos aqui: a realizar um plano que não queríamos que fosse um sonho numa gaveta.

O encontro com o desconhecido começa logo quando aterramos abruptamente num aeroporto mais pequeno do que todos o que conhecemos até então. Quem diria que tantas pessoas cabem aqui dentro. O caos para fazer o visto, onde todos andam literalmente aos papéis. Mais caos para pegar as malas, mais caos para sair do aeroporto. Cá fora as pessoas acotovelam-se para tentarem chegar a um táxi, a polícia tenta pôr ordem mas sem sucesso e só gera, ainda mais, ruído, a par das buzinadelas que já se ouvem intermitentemente. Depois de uma organização extrema como é o Dubai, parece que chegamos a um país virado de pernas para o ar.

Perscrutamos atentamente pelo Mr Min, o nosso anfitrião. Ao fundo, lá estava ele. De papel na mão com os nossos nomes escritos com precisão. Baixinho, bonacheirão, olhos e sorriso rasgado, ganhou logo a nossa confiança. Trazia no regaço aquilo que parecia uma espécie de cachecóis, bege acetinados e colares de flores de um laranja intenso. Enquanto nos dava as boas-vindas, colocava-nos o colar e o “cachecol” pelos ombros. Os nossos olhos brilharam ainda mais. Seguimos para o carro, a tentar explicar que tínhamos boas costas e boas mãos para carregar as nossas próprias malas. De nada adiantou.

A viagem do aeroporto para o centro da cidade de Kathmandu foi feita de olhos bem abertos e colados ao vidro. Agora sim, a verdadeira confusão e desordem! As regras da estrada parecem não existir e tudo se move por qualquer lado, em qualquer lado. As buzinadelas por tudo e por nada parecem mesmo assim fazer efeito, porque naquele jogo de rato e gato ainda ninguém foi apanhado. Estamos definitivamente no sudeste asiático! A poluição é também tanta que a maioria das pessoas usa máscara (temo que essa passará a ser a nossa maior amiga).

Já no escritório do Mr Min, em Thamel (o único sítio calmo e limpo da cidade), a Isabel, uma amiga que partiu antes de nós para o Nepal, lá nos esperava com o seu irmão e com a namorada. Passados tantos meses, exclamou como era bom estarmos aqui para poder falar finalmente em português. Para nós foi um conforto. Chegar a um lugar tão diferente de tudo e ter a companhia de quem já parece fazer parte das rotinas do local… serenou-nos, fez-nos sentir que não estávamos tão longe assim.

                                                                                                     * * *

Passámos os primeiros dias em  Kathmandu, perdidos entre tanto caos, confusos, poeira, pessoas, lojas e mais lojinhas, incensos que nos embriagam. Sobrevivemos aos primeiros dia e à grande cidade. 

Estes primeiros dias foram, sobretudo, de adaptação. Às vezes mais difícil do que esperava…. Porque as expectativas tramaram-nos:  Imaginámos um Nepal diferente, menos caótico. Mas em todo o lado aquele caos que nunca pára, a sujidade sempre presente, os cheiros característicos dessa sujidade. Custou-me a adaptar, a enraizar… tudo é demasiado diferente! E sinto-me assim também, demasiado diferente, questionando-me se é realmente isto que eu quero para mim. As dúvidas causam-me ansiedade, o questionamento leva a um estado emocional ainda de maior saudade e medo do que possa acontecer aos meus que ficaram em Portugal, sobretudo ao Floide. São 19 anos de mais do que um cão, um amigo, família.


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