O nosso impacto enquanto viajantes

No sábado passado, estivemos presentes no Festival Cinema Aventura, promovido pela Nomad. 

O Pedro On the Road, de quem gostamos particularmente, foi moderador da mesa “O impacto dos viajantes”. Entre partilhas de experiências e dicas para viagens sustentáveis, dadas pel@s convidad@s, algumas questões e provocações do Pedro deixaram-nos com vontade de partilhar a nossa opinião. 

Tem sido nossa preocupação mudar hábitos e comportamentos (quer em viagem, quer em casa) que promovam a sustentabilidade e a preservação do meio-ambiente (longe de sermos modelos a seguir, convido-te a leres as nossas 15 dicas para um turismo mais sustentável aqui). 

Para nós, viajar ética e responsavelmente passa não só pela questão do meio-ambiente, mas também pela tentativa em minorar os possíveis impactos socioculturaisnegativos, privilegiando o contacto com as comunidades autónomas, respeitando as suas culturas e os seus modos de vida.

Viajar é deixar a nossa visão etnocêntrica do “mundo ocidental” como “desenvolvido e detentor do conhecimento” para ver o mundo de várias perspectivas. É entender a diversidade e como essa diversidade é manifestada por diferentes sistemas simbólicos e práticas de outras sociedades. É perceber que nenhuma cultura possui a verdade absoluta sobre o que é “certo” ou “errado” e que as diferentes culturas necessitam de aprender umas com as outras. De forma a termos consciência dos erros e dos nossos valores, é necessário conhecer como procedem as outras culturas e de que forma reagem ao que nós fazemos. 

Viajar ajuda-nos, muitas vezes, a aproximar-nos da verdade acerca do modo como devemos viver.

Travel opens our minds: when we experience something different, we begin to see things differently.

Começamos por viajar na Europa. O expoente de um ano de trabalho e dedicação nos estudos e em poupanças culminava naquele mês de Agosto, num passe que nos permitia percorrer a europa de comboio. Viajar numa europa central é quase como viajar em Portugal. Somos similares no vestir, no que lemos, no que ouvimos, no que vemos, até na forma como encaramos a vida e o mundo. Mas ainda assim a troca de vivências é apaixonante.

 Foi possivelmente em Sarajevo que tivemos o nosso primeiro choque cultural. Mas foi a convivência em Marrocos e na Turquia (chegamos à Turquia sempre por terra) que nos deu alguns dos melhores ensinamentos sobre o que é ser muçulmano, desculpa, quero dizer sobre o que é ser-se ser humano.

 Vamos por partes: Em Marrocos e na Turquia sentimos a importância de cuidar do outro. Ofereceram-nos casa e comida. Zakah é um pilar do Islão e consiste na obrigação do muçulmano que detém melhor condição financeira de prestar apoio àqueles que necessitam. Obrigação ou não, apaixonamo-nos pelo modo de viver para fora, para a família, para o vizinho, em suma, para o “outro”. 

Em Istambul, conhecemos uma rapariga da nossa idade que nos explicou que o hijab também pode ser uma forma de liberdade e não de opressão. Contava-nos que era sua decisão, enquanto mulher escolher não mostrar o corpo, porque não se sentia à vontade. A forma de se sentir bonita e em paz era com o lenço na cabeça. E eu, feminista convicta, calei-me. Ela é livre, pode ter essa opção de escolha de colocar ou não o véu…tal como eu escolho pintar o cabelo de loiro ou de vermelho. A escolha é nossa e ninguém deve desrespeitar isso. Já o niqab (que deixa só os olhos à mostra), dizia-nos, não é da religião. Foi inventado culturalmente pela comunidade para controlar as mulheres.

Eestes são apenas dois dos inúmeros exemplos que nos tocaram nestes últimos 11 anos de viagens. É por isto, e tão somente para isto, que viajamos: para expandir os nossos horizontes, que seriam tão pequeninos sem todas estas experiências; para conhecer novas pessoas e ampliar os nossos laços afetivos. Sempre criando memórias. 

Nas nossas viagens, procuramos o contacto direto com as pessoas locais. Frequentamos os espaços públicos, os cafés, os restaurantes locais , as festas, das gentes da terra. Privilegiamos o alojamento local, sobretudo o modelo familiar. Ouvimos de coração abertos as suas narrativas pois é certo que encontramos similariedades, sobretudo com o nosso passado. São estas coisas que marcam e que permanecem na nossa memória. Foi giro ir ao sítio fancy naquele dia porque possivelmente precisámos de sentir o ar-condicionado na cara ou ir ao resort X tirar umas fotos que nos rendeu uns likes extra no instagram. Mas nunca mais nos lembramos destes nomes. O resto permanece. Os rostos permanecem. Os cheiros também. E as aprendizagens? Essas transformam! 

A experiência é um espaço de aprendizagem à tolerância. Não há aqui espaço para críticas ou comparações. Simplesmente ficamos e seguimos absorvendo

Mas mentiríamos se disséssemos que as viagens não nos colocam num turbilhão se sentimentos e questionamentos pertinentes. Qual o limite do relativismo cultural, do que deve ser culturalmente aceitável e do moralmente reprovável? 

Um dos convidados do painel da Nomad dizia que nunca comentava ou questionava nada, porque sentia que não era o seu lugar. Eu respeito mas não consigo compreender. Não considero que devemos aceitar tudo só porque é culturalmente diferente. Há valores que não podem ser relativizados: a dignidade humana e animal fazem parte desses valores.

Uma prática como a mutilação genital feminina não pode ser respeitada por ser uma prática cultural. A segregação de género não pode ser respeitada por ser uma prática cultural. E se estes são exemplos crassos, outros, aparentemente mais inofensivos podem e devem também ser questionados. Mas jamais numa perspectiva de supremacia do conhecimento.

Vamos antes chamar-lhe as “boas práticas” :

Saber ouvir o outro: Antes de discutir com uma pessoa por discordar dela, opta pelo diálogo e saber ouvi-la na essência. Ouvir na essência significa estar aberto a receber novas informações e absorvê-las. 

Respeitar a liberdade da outra pessoa: Não há como contra-argumentar semelhante premissa: Todas as pessoas têm o direito de escolher o seu próprio caminho. Então, se não concordas com os gostos musicais, a ideologia política ou os costumes de determinada religião é um direito teu desde que respeites o direito do outro.

Empatia: A palavra-chave que consiste no simples acto de nos colocarmos no lugar de outra pessoa de forma a podermos (pelo menos tentar)imaginar como ela se sente.

Paciência: A tolerância tem uma forte relação com a paciência, por isso é fundamental exercitá-la diariamente. 

Parece que estamos a fugir ao tema, mas não. Partilhamos contigo algumas das tentativas que encetamos para diminuirmos o nosso impacto enquanto viajantes: 

  • Escolher empresas que respeitem os direitos humanos e o ambiente

    Preferencialmente optamos por empresas locais às multinacionais, de forma a que o dinheiro fique na comunidade e os lucros não assentem na exploração dos trabalhadores. Devemos sempre colocar a questão: “será que estou a ajudar estas pessoas ou estou na verdade a perpetuar a sua exploração?”. Estamos a escrever um artigo que sobre uma empresa que conhecemos em Coron (Filipinas), a RedCarabao, cuja filosofia assenta no empoderamento das famílias indígenas “Tagbanua” e da conexão dos viajantes com as comunidades. A partir do momento em que soubemos que os grandes resorts fazem pressão económica para as tribos abandonarem as pequenas ilhas, o desejo de estar num bungalow sobre a água esmoreceu.

  • Optar por hospedagens sustentáveis

    Ao invés de escolhermos SEMPRE uma cadeia de hotéis, optamos por alojamento local, pousadas locais, guesthouses (tipologia muito usada no sudeste asiático em que a família vive numa parte aparte da casa e têm quartos para alugar), preferencialmente sustentáveis. Ficar com os locais é das melhores formas para compreender o destino e a cultura que estamos a explorar, poupando algum. Claro que a questão do alojamento local também pode ser perniciosa quando falamos de cidades onde a pressão turística é enorme e, por isso, os moradores são obrigados a sair das suas casas porque não conseguem pagar a mensalidade. Descentralizar pode ser a resposta para este problema.

  • Comer em restaurantes locais

    Na maioria dos países não é mais barato comer numa cadeia de fast-food famosa, por isso, isso não serve de desculpa. Comer localmente faz com que o dinheiro do turismo gire em torno dos pequenos comerciantes.

  • Não visitar atrações tipo "jardim zoológico humano"

    Quando estivemos no norte da Tailândia negamos todas as “ofertas” que nos queriam levar a ver as “mulheres-girafa” (só o termo até dói!) porque nos interessava ir mesmo às montanhas. Apareceu um homem que disse que nos levava e nós ingénuos, fomos. Quando demos por nós, a onde é que estávamos? No tal “jardim zoológico humano”. Discutimos com o condutor que nos tinha prometido uma coisa e feito outra. E ele só nos pedia desculpa porque para ele aquele era o sítio “certo”. A responsável pela venda de bilhetes do parque entrou na discussão para garantir que aquele era um bom e autêntico lugar. Convidou-nos a ver com os nossos olhos e nós lá fomos. O resto… o resto, devíamos ser as pessoa com maior cara de gota à face da terra. Os turistas em cima das pessoas a tirar constantemente fotos, a meter os anéis para a foto, a entrarem pelas suas casas dentro sem qualquer respeito. Triste. Só isso, simplesmente triste. Não nos demoramos muito por lá e negamos visitar a maior parte das coisas pois foi impossível não nos sentirmos a invadir a privacidade das pessoal que ali vivem. Conclusão: Pede sempre permissão quando queres fotografar alguém e tenta conhecer um pouco da história daquela pessoa que te parece “exótica”. Informa-te da veracidade e autenticidade das tribos que visitas porque aquilo que parece ser “preservação cultural” pode ser muitas vezes lucro de pessoas que não se coíbem de explorar outras.

  • Pagar preços justos

    Se há coisa que nós fazemos é negociar os preços. Às vezes nem é por uma questão económica, porque estamos a falar de “trocados” mas por uma questão de princípios. O preço a pagar deve ser o justo, não o inflacionado (só porque somos “brancos/turistas” logo ricos, o que não é verdade) pois também esses desregulam a economia local.

  • Não dar esmolas a crianças

    Este é definitivamente um dos comportamentos que em viagem nos levanta mais questões, mais dúvidas e dor…às vezes sentimo-nos as pessoas piores à face da terra por estarmos a negar dinheiro a uma criança que nos parece estar faminta, mas decidimos por princípio não dar esmolas ou doces só porque nos pedem. A verdade é: o lugar das crianças é na escola onde podem estudar e brincar e ter a oportunidade de um futuro melhor. Quando damos esmolas às crianças que mendigam nas ruas não lhes estamos a garantir o seu futuro, mas apenas a perpetuar essa condição e a manter a sua situação de vulnerabilidade social. Será menos um dia na escola. Mais um dia expostos aos perigos da rua. Não nos podemos esquecer que são as esmolas que mantém a pessoa na condição de rua, e que na maioria das vezes,essa criança é explorada por alguém ou vai usar o dinheiro para bens que não são de todo essenciais. Ou seja, não estamos a ajudar a sustentar a criança, mas sim a sustentar quem explora o trabalho infantil. Se tens vontade de ajudar quem está em situação de rua ou de exclusão, existem alternativas mais eficazes do que as esmolas. O ideal é conhecer e colaborar com instituições da rede de assistência à criança, com ONG que desenvolvam um trabalho que empodere as comunidades e as crianças ou mesmo com as escolas locais.

  • Evitar o volunturismo

    O voluntarismo é uma prática que tem crescido nos últimos tempos e que consiste em associar o voluntariado ao turismo. A ideia parece boa, mas... Volunturismo é participar de uma viagem organizada para passar duas ou três semanas a cuidar das crianças de um orfanato ou a construir casas num país em desenvolvimento qualquer. Nada é exigido aos candidatos. As agências especializadas vendem a experiência — customizada ao gosto do cliente— em três ou quatro cliques; exigem apenas dinheiro. O The Guardian publicou uma reportagem que alerta para o surgimento de um mercado que lucra milhares com a exploração de crianças para a obtenção de doações por parte de “turistas comovidos”. Em 2010, o jornalista Birrel já alertava para essa prática de comprar, raptar ou alugar crianças a famílias pobres para simularem que eram orfãs. Um estudo do Unicef mostra, por exemplo, como nos últimos anos no Camboja houve um rápido crescimento dessas instituições — e que dois de cada três órfãos não eram órfãos, mas sim crianças recrutadas de famílias pobres. Isto acontece no Nepal, no Sri Lanka, na Indonésia...e por aí adiante. Outra opção – construir casas, escolas, poços – é um verdadeiro negócio: em vez de pagar aos habitantes locais, a organização cobra aos “visitantes”. Independentemente dos resultados são os locais que perdem as opções de trabalho. Nesse artigo, há um exemplo muito claro que demonstra o absurdo da situação: uma casa construída em Honduras por um volunturistas custa — incluindo suas viagens — 30.000 dólares. A mesma casa construída por moradores custa 2.000 . Se os volunturistas ficassem nas suas cidades e enviassem o dinheiro, poderiam ser construídas 15 vezes mais casas. Além disso, o dinheiro pago nem sempre é revertido para melhorias nas comunidades, mas sim para interesses pessoais. Sejamos francos, o volunturismo é muito mais sobre a autorrealização dos volunturistas do que sobre as necessidades das nações em desenvolvimento. O que na prática este modelo significa é zero de mudança: os “ricos” não propõem nenhuma mudança, vão trabalhar alguns dias para melhorar um pouco a "pobre vida dos pobres", que na verdade, continuarão para sempre assim.

VIAJAR É UMA PONTE PARA A DEFINIÇÃO DO QUE É SER-SE SER HUMANO, ABRINDO A MENTE E O CORAÇÃO NUMA JORNADA PELO RESPEITO, PELA DIVERSIDADE E PELA TOLERÂNCIA. 


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