Turismo animal: como evitar pactuar com a crueldade contra os animais, em viagem?

Iniciámos este texto com uma confissão: nós também já fizemos atividades que envolveram a exploração de animais selvagens.

 Eu, Mafalda, lembro-me de ser criança e a minha mãe me levar ao circo. Na altura, um dos momentos altos era o intervalo onde se podia tirar fotos com leões bebés e montar um elefante. Nessa época as pessoas ainda não eram muito educadas para pensar sobre estas questões… E eu era uma criança de 5 anos. Fiz as duas coisas. Anos mais tarde, decidi que nunca mais na vida iria entrar num circo que tivesse animais. 

O problema é que nem precisamos de recuar tão atrás no tempo. No ano passado quando estivemos nas Filipinas, queríamos muito observar tubarões baleia. Fizemos um trabalho de casa incipiente e só ouvimos aquelas vozes que disseram o que gostaríamos de ouvir. Fomos a Oslob e fizêmo-lo. A reflexão veio depois e vamos abordar esse assunto num próximo artigo.

Há pouco tempo, estivemos em Marrocos e a experiência de ir dormir no meio do deserto envolvia montar camelos durante aproximadamente 1 hora. E nós fomos…

E é por este tipo de situações que acreditamos que a informação é uma arma poderosíssima e que pode mudar comportamentos. 

Antes de fazer uma atividade com um animal, pergunta a ti mesm@: “de onde veio este animal?” Quase de certeza que a resposta será “foram capturados ainda bébes e retirados do habitat natural”, ou “traficados e comprados no mercado negro” ou “nasceram em cativeiro”. Nenhuma das opções é positiva. Mas mesmo que este animal esteja no seu habitat natural e o que ele esteja a fazer pareça ser feito de livre-vontade, a atividade poderá não ser benéfica para o mesmo.

O relatório “Wildlife Conservation Research Unit” (WildCRU), da Universidade de Oxford analisou 24 tipos de atrações com animais no mundo,listando as dez mais cruéis. Vale a pena a leitura, mas deixamos aqui um resumo:

 

1. PASSEIOS EM ELEFANTES

 Será que te recordas do elefante que faleceu no Camboja, em 2016, por exaustão de tanto transportar turistas? 

Os elefantes, essas magníficas e imponentes criaturas, são das que mais sofrem às mãos dos humanos e no sudeste asiático esse problema é bem grave, pois só na Tailândia estima-se que mais de 1300 elefantes sejam usados para fins recreativos. Muitos vivem acorrentados, obrigados a trabalhar sob calor extremo e, não raras são as vezes que passam a noite amarrados na beira de estradas. Os seus treinos envolvem objetos pontiagudos, varas, chicotes e até processos de tortura (com períodos de privação de água e comida!!!) As crias são afastadas das suas progenitoras e confinadas em jaulas demasiado pequenas para se moverem. Depois, são postos à venda no mercado negro, onde um elefante “treinado” pode chegar a custar 20.000 euros.

Posto isto, assiste-se a um vertiginoso declínio da população de elefantes na Tailândia, chegando ao ponto do elefante asiático ser considerado uma espécie em risco de extinção!

ONDE VÊ-LOS SEM CRUELDADE: Na Tailândia, um dos locais mais éticos é o Elephant Nature Park, onde estão elefantes resgatados de maus-tratos do turismo e de madeireiras. Na África, safáris como o Chobe National Park, em Botswana, são supostamente reputáveis.No Sri Lanka há várias reservas naturais onde se podem encontrar elefantes quando estes estão nas suas rotas migratórias. Podes ler a nossa experiência aqui.

Photo by Sam on unsplash.com

 2. FOTOS COM TIGRES

O que está por detrás daquela selfie fofinha com um tigre? Um treino violento que começa logo com as crias a serem separadas de suas mães nas primeiras semanas de vida e confinadas a jaulas minúsculas. Depois são sujeitas a toques,  puxões e abraços por horas e horas, dias, meses, anos pelos turistas. Desta forma, estão sempre expostas a altos níveis de ruído e de stress.

O estudo revelou que os tigres são mantidos em pequenas jaulas com piso feito em cimento e com acesso limitado à água fresca. A privação de comida é usada como técnica para punir os tigres quando eles cometem algum “erro”.

O stress é de tal ordem que, de acordo com a Word Animal Protection, 12% dos tigres observados apresentaram problemas comportamentais extremamente agressivos para consigo próprios.

Photo by Leonard von Bibra on UnSplash

3.  FOTOS E “PASSEAR”LEÕES


As crias são capturadas e afastadas das progenitoras apenas com um mês de vida. 

Passam a viver em cativeiros e os turistas mexem e tiram fotos com elas durante horas. Em alguns casos os turistas são orientados para bater nos pequenos se eles forem agressivos. Quando estes leões crescem e ficam demasiado grandes para serem segurados ao colo ou abraçados são usados para “passeios” com os turistas.

Por não serem libertados de volta ao seu habitat natural, os leões estão condenados a viver para sempre em cativeiro, o que tem, obviamente, repercussões profundas no seu estado psicológico.

ONDE VÊ-LOS SEM CRUELDADE: A Tanzânia tem a maior população de leões selvagens do continente africano,onde o Serengeti National Park é um bom exemplo.

Photo by Kris Michael Kristes on Unsplash

4. SEGURAR TARTARUGAS MARINHAS

As tartarugas marinhas são animais naturalmente “tímidos”. Por este motivo, quando são tocadas/agarradas por turistas, elas podem entrar em pânico e bater intensamente as “barbatanas”, o que pode causar fracturas. Há também situações em que os turistas as deixam cair, o que leva à sua morte. 

O contacto com os humanos acaba por enfraquecer o seu sistema imunológico, fazendo com que fiquem mais suscetíveis a doenças.

Photo by Flavio Gasperini on UnSplash

5. ESPETÁCULOS COM GOLFINHOS ou outras criaturas marinhas

Ver golfinhos no seu habitat natural é uma experiência tão maravilhosa que é difícil de compreender porque razão alguém paga para os ir ver numa piscina onde não podem nadar nem saltar à vontade. 

Pior do que isso é que esses treinos envolvem crueldade e abusos físicos. Acresce, ainda o facto, da água ser, por vezes, tratada com cloro – o que pode causar irritações na pele e nos olhos – e não ter profundidade suficiente para se “abrigarem” do sol tórrido, o que origina “queimaduras solares”.

Para chegarem até “nós”, os golfinhos são capturados por barcos de alta velocidade. Muitos morrem durante o transporte de tão grande que é o stress. Já em cativeiro, muitos deles sofrem com úlceras gástricas e têm ataques cardíacos.

ONDE VÊ-LOS SEM CRUELDADE: Em Portugal podem ser vistos no Rio Sado, na Ria Formosa,nos Açores e na Madeira.

6. MACACOS DANçARINOS

Por muito parecidos que sejamos, não é suposto os macacos exibirem comportamentos estereotipadamente humanos. Para isso eles são treinados de forma agressiva e dolorosa e são mantidos toda a sua vida em cativeiro, acorrentados em pequenas jaulas ou ao ar-livre mas com correntes curtas. Consegues imaginar o grau de stress pelo qual os macacos passam?

ONDE VÊ-LOS SEM CRUELDADE: Índia, Nepal, Sri Lanka, Tailândia, Camboja, é possível ver macacos, a qualquer hora e em qualquer lugar.

Na Floresta Amazônica há dezenas de espécies de macaco; ficando no hotel de selva Amazon Tupana Lodge, vêsmacacos-barrigudos, macacos-de-cheiro e zogue-zogues. Na Costa Rica, o Manuel Antonio National Parké casa para macacos-prego, bugios e macacos-esquilo. Uganda é o melhor país do mundo para ver chimpanzés, no Kibale Forest National Parke e gorilas, no Bwindi Forest National Park. Já o melhor sítio para observar orangotangos é no Burneo (Malásia). 

Photo by Alfonso Castro, on UnSplash

7. ENCANTAR SERPENTES E BEIJAR COBRAS

As cobras são capturadas e, com um alicate de metal, os seus dutos de veneno são removidos. Uma operação que não é isenta de riscos pois muitas vezes sofrem dolorosas infecções que as podem levar à morte.

Photo by Gaetano Cessati, on UnSplash

8. “QUINTAS” DE CROCODILOS

Os turistas visitam as “quintas” de crocodilos para vê-los e, depois, comê-los nos restaurantes locais. Para esse efeito, os crocodilos são geralmente mantidos em poços de cimento, muitas vezes superlotados e sem qualquer higiene. Uma vez que são também sensíveis ao stress, podem desenvolver septicemia (doença infecciosa característica de crocodilos), chegando a um ponto em que deixam de ser capazes de combater a infecção e acabam por morrer.

Photo by Daniel Fuzio, on UnSplash

9. PASSEIOS/MONTADAS EM ANIMAIS DOMESTICADOS

Os cavalos e os burros ficam expostos ao sol e à chuva durante as suas longas horas de trabalho, puxando as charretes turísticas, ou carregando a carga das pessoas por trilhos até levando as próprias pessoas por esses trilhos. Consequentemente, muitas vezes estes animais sofrem de artrite e desgaste nas articulações. 

Os dromedários/camelos também sofrem com os problemas de saúde e bem-estar decorrentes de seu uso em atividades turísticas e a impossibilidade de desenvolver os seus comportamentos naturais. O fato de um camelo cuspir ou “gritar”, para além de sinal de stress/medo, pode indicar também que este sofreu más experiências ou que sofre dor.

Os freios rudimentares, feitos de ferro, ao roçarem na pele dos animais podem provocar feridas e infecções. As feridas sob a cabeça geralmente são um indicador de que os camelos estão amarrados o dia todo, algo que os força a dormir com a cabeça erguida até que se cansem e se apoiem nos ferros, embora sintam obviamente dor. Para serem dominados, são colocados ganchos, paus ou cordas que atravessam dolorosamente o tecido entre as narinas e que podem rasgar o nariz se forem puxados com muita força. Outro método cruel de dominação é o uso de cordas amarradas às mandíbulas inferiores, que causam feridas nos cantos da boca. Mais ainda, o desenvolvimento dos camelos só acontece por volta dos 6/8 anos e, muitas vezes, esse desenvolvimento não é respeitado, usando-se os camelos jovens para passeios com turistas. Aconselhamos que antes de montares um camelo vejas em que circunstâncias estes são tratados, qual a duração do passeio e senão levas carga. Se um camelo não quiser levantar-se é aconselhável descer. Da mesma forma, o dono não deve bater nele para que ele se levante! Para evitar contrair doenças, é muito importante lavar as mãos depois de entrar em contacto com eles e evitar tocar naqueles que têm manchas sem pêlos. 

Impõe-se aqui a questão: que comportamentos podemos nós adotar por uma atitude mais responsável face à protecção (ou pelo menos à não exploração) dos animais?

Partilhamos contigo algumas orientações que também temos vindo a adoptar, à medida que tomamos mais consciência destas questões:

  • Visita instituições que resgatem animais do mercado negro ou que tenham sofrido maus-tratos em algum tipo de atividade, de forma a ajudar a financiar iniciativas que trabalham para dar mais dignidade aos animais.
  • Tenta que o teu papel seja apenas o de observador e que não interfira na vida selvagem. Safáris, programas de observação de vida marinha, mergulho, snorkel, observação de pássaros e trilhas são muitas vezes opções éticas. Nada de alimentar ou tocar nos animais.
  • Não participes em atividades que envolvem animais enjaulados, acorrentados ou em performances tipo circo.
  • Não toques em animais selvagens, porque podes, inadvertidamente, transmitir alguma doença e também colocar a tua segurança em risco.
  • Não grites, faças barulho ou fumes perto de animais.
  • Não pagues para ver lutas entre animais, nem em eventos considerados culturais, como as touradas ou a luta de galos. 
  • Nunca compres “souvenirs” com marfim ou roupas feitas de pele de animais como couro de jacaré, pele de cobra, casacos de pêlo verdadeiros.
  • Não apoies o uso de animais como objeto fotográfico.
  • Não te deixes enganar por centros que se chamam santuários, orfanatos ou centros de conservação. Certifica-te que são de confiança e que promovem a preservação das espécies.
  • Recolhe todo o lixo, especialmente o plástico, em ambientes onde vivem animais.

A compaixão para com os animais é das mais nobres virtudes da natureza humana. (Charles Darwin)


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