Nos últimos tempos tem-se vindo a falar cada vez mais sobre a importância do turismo sustentável. Ao mesmo tempo, o número de viajantes preocupados a este nível, felizmente, tem aumentado também.

Nós não somos especialistas em sustentabilidade mas este é um assunto sobre o qual reflectimos, de modo a perceber qual o impacto que deixamos num determinado lugar quando viajamos. Muitas das reflexões chegaram tarde demais e embora não possamos mudar os erros cometidos no passado, podemos aprender com eles para não os repetir no presente e inspirar outros a não os repetirem também.

E então o que é isto de turismo sustentável? Basicamente toda a actividade turística que garanta um crescimento económico que salvaguarde o ambiente e os recursos naturais, ou seja, que proteja o meio-ambiente, é considerada “turismo sustentável”. Mas não se fica por aqui.

Para nós, viajar ética e responsavelmente passa não só pela questão do meio-ambiente, mas também pela tentativa em minorar os possíveis impactos socioculturais negativos, privilegiando o contacto com as comunidades autónomas, respeitando as suas culturas e modos de vida.

Esperamos que estas simples dicas possam de alguma forma servir de inspiração para outras pessoas adotarem atitudes e comportamentos mais conscientes durante as suas viagens. Não é obviamente uma lista exaustiva e por certo haverão mais mil e um outros tópicos importantes de abordar.

Adoraríamos que nos deixasses outras sugestões sobre turismo sustentável que possam ser acrescentadas neste artigo (e acrescentadas na nossa vida) na caixa de comentários.

1. Respeita as culturas e comunidades locais

Viajar é deixar a nossa visão etnocêntrica, para entender a diversidade e como essa diversidade é manifestada por diferentes sistemas simbólicos e práticas de outras sociedades. É perceber que nenhuma cultura possui a verdade absoluta sobre o que é “certo” ou “errado” e que as diferentes culturas necessitam de aprender umas com as outras.  Viajar ajuda-nos, muitas vezes, a nos aproximarmos da verdade acerca do modo como devemos viver. Ao dizer isto, não significa que devemos aceitar tudo só porque é culturalmente diferente. Há valores que não podem ser relativizados: a dignidade humana e animal são dois exemplos desses valores.

Respeitar as outras culturas é também evitar invadir o espaço das pessoas, não tirar fotos sem autorização, tentar não interferir no seu quotidiano, vestir-se de forma apropriada de acordo com os padrões locais e respeitar as suas tradições ou crenças religiosas. Isto também é turismo sustentável.

2. Nunca, mas mesmo NUNCA vás a atracções que explorem animais

Não deveria ser preciso explicar algo que é tão simples. Um animal selvagem é isso mesmo, selvagem… então partindo apenas dessa premissa dá para imaginar quanto sofrimento está por detrás daquele tigre que está ali quieto e parado para a “selfie” durante minutos, horas, dias, meses, anos…

O mesmo acontece com os shows de golfinhos ou outros animais, com os macacos, as cobras ou quando se monta um elefante.

O que está, muitas vezes, por detrás disto?

Espaço/ Alojamento e alimentação inadequados para o animal
– Falta de tratamento veterinário

– Sujeição do animal à força bruta e à violência para aprender os truques

– Trabalho forçado que conduz à morte precoce

Enquanto houver turistas dispostos a pagar por este tipo de coisas, vai sempre haver exploração animal. Se o nosso comportamento for mais exigente e menos passivo não duvido nada que venha a ser diferente no futuro.

Em breve, vamos escrever um artigo mais detalhado baseado no estudo da ONG britânica World Animal Protection que lista as mais cruéis atracções turísticas com animais.

3. Não vás a atrações do tipo “jardim zoológico humano”

Quando estivemos no norte da Tailândia negámos todas as “ofertas” que nos queriam levar a ver as “mulheres-girafa” (só o termo até dói!) porque nos interessava ir mesmo às montanhas. Apareceu um homem que garantiu que nos levava e nós ingénuos como às vezes somos, fomos. Não tínhamos feito o trabalho de casa , por isso, não sabíamos que precisávamos de dois dias, no mínimo, para ir até às montanhas. Quando demos por nós, onde é que estávamos?! No tal “jardim zoológico humano”. Discutimos com o condutor que nos tinha prometido uma coisa e feito outra. E ele só nos pedia desculpa porque para ele aquele era o sítio “certo”. A responsável pela venda de bilhetes do parque entrou na discussão para garantir que aquele era um bom e autêntico lugar. Convidou-nos a ver com os nossos olhos e nós lá fomos. O resto… o resto, devíamos ser as pessoas com a expressão mais incrédula à face da terra. Os turistas em cima das pessoas que ali habitam, constantemente a tirar fotos, a meter os anéis no pescoço para a foto, a entrarem pelas casas dentro sem qualquer respeito. 

Triste! Simplesmente triste! 

Não nos demorámos muito tempo por lá e negámos visitar a maior parte das coisas pois é impossível não nos sentirmos a invadir a privacidade e a vida daquelas pessoas.

Conclusão: Pede sempre permissão quando queres fotografar alguém e tenta conhecer um pouco da história daquela pessoa que te parece “exótica”. Informa-te da veracidade e autenticidade das tribos que visitas porque aquilo que parece ser “preservação cultural” pode ser o lucro de pessoas que não se coíbem de explorar outras.

Sobre este tema podes ler mais aqui, num artigo que os 360 Meridianos fizeram sobre as “mulheres girafa” da Tailândia. 

4. Evita os descartáveis para um verdadeiro turismo sustentável

Troca as garrafas de plástico por um “cantil” apropriado que dê para usar sempre em viagem;

Troca as sacas de plástico das compras por sacos de pano (que não irão levar 400 anos a decompor-se);

Troca os lenços de papel por lenços de pano;

Troca os pensos e os tampões por um copo menstrual;

Bebes muito café? Arranja um copo/caneca de café reutilizável para viagem;

5. Ao planear a viagem escolhe empresas que respeitem os direitos humanos e do ambiente

Preferencialmente opta por empresas locais e rejeita as multinacionais, de forma a que o dinheiro fique na comunidade e os lucros não assentem na exploração dos trabalhadores. Devemos sempre colocar a questão: “será que estou a ajudar estas pessoas ou estou na verdade a perpetuar a sua exploração?”.

Estamos a escrever um artigo, que sairá em breve, sobre uma das melhores empresas que conhecemos em Coron (Filipinas): a RedCarabao, cuja filosofia assenta no empoderamento das famílias indígenas “Tagbanua” e da conexão dos viajantes com as comunidades.

A partir do momento em que soubemos que os grandes resorts fazem pressão económica para as tribos abandonarem as suas pequenas ilhas paradisíacas, em alguns sítios das Filipinas, aquele desejo de estar num bungalow sobre a água esmoreceu logo ali. Ao invés dormimos numa tenda/em redes ao ar livre. Não havia grandes comodidades… mas, quem precisa disso quando tem experiências maravilhosas e a possibilidade de estar num sítio abençoado assim?

6. Desloca-te optando por formas não poluentes (a pé ou de bicicleta) ou usando transportes públicos

Esta é também a melhor forma de poupar para ir viajar e diminuir os gastos durante a viagem. Além disso, ao viajar como e com os locais, tens experiências mais autênticas .

7.Não desperdices água e energia

Quem é que nunca pensou, durante a sua estadia: “isto não sou eu que pago” e deixou as luzes acesas sem necessidade ou tomou sempre aqueles banhos super demorados?!

Não é preciso dizer que a água é um bem precioso e a produção de energia tem sempre impacto no ambiente, certo?

Evita a troca desnecessária de roupa da cama, usa as toalhas mais de uma vez. Não te esqueças de desligar a luz, o ar condicionado/ventoinha e os equipamentos da tomada quando não estás a precisar deles ou sais do quarto.

8. Opta por uma hospedagem sustentável

Ao invés de escolheres SEMPRE determinadas cadeias de hotéis, opta por alojamento local, pousadas locais, guesthouses (que é uma tipologia muito usada no sudeste asiático, na qual a família vive na parte debaixo da casa e têm quartos para alugar a turistas, na de cima). Para além do fator “poupança” que já falamos aqui, esta é uma das medidas de sustentabilidade com maior impacto num curto espaço de tempo.

Por último, mas não menos importante, ficar com os locais é das melhores formas para compreender melhor o destino e a cultura que estamos a explorar.

9. Não deixes rasto no caminho nem retires nada dele

Carrega sempre o teu lixo para o local correcto (faz a reciclagem) sem poluir o ambiente e preferencialmente evita tudo o que seja de plástico e não biodegrdável.

Não recolhas plantas e /ou animais porque isso pode mudar completamente um ecossistema.

10. Prefere os alimentos e os pratos típicos da região onde te encontras e da época em questão

É certo que esta dica é transversal ao dia-a-dia de forma a minorar o impacto do nosso consumo no ambiente. É um esforço difícil mas realmente importante.

11. Come em restaurantes ou espaços locais

Na maioria dos países não é mais barato comer numa cadeia de fast-food famosa do que num restaurante local, por isso, isso não serve de desculpa. É certo que sítios como o 7Eleven (cadeia de supermercados norte americana muito conhecida na Ásia) é um salvador mas quando optamos por gastar o nosso dinheiro com os locais permitimos que o dinheiro do turismo gire em torno dos pequenos comerciantes.

12. Ajuda a conservar o património natural

Se há trilhos assinalados por alguma razão o é. Não saias dos trilhos indicados para não danificares os ecossistemas naturais e o crescimento de vegetação. Os likes no instagram não valem comportamentos estúpidos.

13. Atenta na compra de souvenirs

Para a economia local é óptimo comprar algo que foi feito localmente, valorizando o trabalho dos artesãos que mantém a cultura e as tradições vivas. Por outro lado, é importante nunca comprar “lembranças” que tenham causado algum dano ( por exemplo, dentes ou chifres de animais, corais, etc).

14. Paga preços justos

Se há coisa que nós fazemos é negociar os preços. Às vezes nem é por uma questão económica, porque estamos a falar de “trocados” mas por uma questão de princípios. O preço a pagar deve ser o justo, não o inflacionado (só porque somos “brancos/turistas, logo ricos”, o que não é verdade) pois esses preços também desregulam a economia local.

15. Não dês esmolas a crianças

O lugar das crianças é na escola onde podem estudar e brincar e ter a oportunidade de um futuro melhor. 

Quando damos esmolas às crianças que mendigam nas ruas estamos a perpetuar essa condição. Será menos um dia na escola. Mais um dia expostos aos perigos da rua. Como resultado, há muitos destinos com pessoas a pedir que fingem estar numa situação bem pior do que a sua realidade, a fim de extorquir dinheiro aos viajantes.

 As crianças podem ser retiradas da escola para pedirem nas ruas e, nos piores casos, podem fazer parte de redes chefiadas por indivíduos sem escrúpulos que as usam a fim de ganhar dinheiro só para si

Este é definitivamente um dos comportamentos que em viagem nos levanta mais questões, mais dúvidas e dor…às vezes sentimo-nos as  piores pessoas à face da terra por estarmos a negar dinheiro a uma criança que nos parece estar faminta, mas decidimos por princípio não o fazer. Se realmente queremos ajudar, procuramos apoiar a comunidade através de uma organização local idónea.

Estamos a escrever um artigo de opinião sobre este assunto que partilharemos contigo em breve.

                                                                                                 * * *

Para terminar consideramos que há dois pontos que sumarizam as boas práticas não só para o turismo sustentável, mas para uma vida amiga do ambiente no geral. E são bem simples:

Reciclar o lixo: Todo o lixo que não seja orgânico e se possível,o orgânico também. A poluição não é formada apenas por plásticos. Eles representam 80% da poluição, mas também devemos ter em atenção outros materiais como latas, vidros, óleos de cozinha e outros produtos químicos.No que concerne aos ambientes marítimos,  mesmo o nosso lixo orgânico não é positivo para os ecossistemas naturais lá existentes.

Diminuir o uso de plástico: Não é fácil fugir aos produtos que já vêm embalados em plástico mas é possível se optarmos por compras a granel ou em lojas locais. Usar sacos de pano ao invés de sacos de plástico. Evitar comidas embaladas em plástico (na Ásia o takeaway às vezes vêm em folhas de palmeira ou embrulhados em jornal. Também já compramos uns snacks embrulhados num papel do que parecia uns trabalhos de casa de algum miúdo, por isso, a criatividade é o limite!) E as palhinhas? São mesmo necessárias?

Voltamos a reiterar que não somos os supra-sumos da sustentabilidade. Mas com o número crescente de pessoas a viajar e o impacto que estão a deixar nalguns dos locais mais bonitos do planeta (veja-se o caso das PhiPhi na Tailândia que de paraíso passaram a pesadelo ou da ilha de Borocay, nas Filipinas, que teve de ser encerrada) precisamos urgentemente de contribuir para minorar o impacto negativo do turismo no meio-ambiente e nas comunidades.

Juntos podemos fazer a diferença, não concordam?


2 Comments

Flearound · December 17, 2018 at 12:57 am

Este é o caminho, obrigada pela partilha pessoal! Pouco a pouco vamos fazendo a diferença.
Janete,
Flearound

    BetterTogether · December 19, 2018 at 11:11 am

    Obrigada nós pelas tuas palavras!!
    Estamos juntos Janete! As mudanças de comportamento urgem mas não tenho dúvidas que as pessoas conscientes (e as que inevitavelmente se juntarão a esta consciência) vão fazer a diferença.

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